Um encontro numa caminhada domingueira.
28.1.08
9.1.08
Beatriz
Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Olha
Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida
Chico Buarque
Lindo, lindo, lindo!
30.12.07
Imagino
É altura de fazer balanço, de fechar a loja, fazer um inventário ao que se concretizou ou não no último ano. O que ficou para trás, normalmente entra na lista de prioridades, nem que seja para ficar mais um ano de molho...
Acima de tudo imagino o mundo do meu umbigo, o mundo do meu quintal, que funciona como um sopro para o mundo em geral.
1.8.07
17.7.07
20.6.07
6.6.07
The other side
Não costumo utilizar frases do género: "Foi o destino!" , "Estava escrito!", etc, etc... Mas devo confessar que realmente há um destino ao qual ninguem escapa por mais voltas que dê. E é o que mostra este delicioso video.
27.5.07
Bigger Than My Body

This is a call to the colorblind
This is an IOU
Stranded behind a horizon line
Try to be something true
Yes, I'm grounded
Got my wings clipped
I'm surrounded by
All this pavement
Guess I'll circle
While I'm waiting
For my fuse to dry
Chorus:
Someday I'll fly
Someday I'll soar
Someday I'll be
So damn much more
Cause I'm bigger than my body
Gives me credit for
Why is it not the time?
What is there more to learn?
I've shed this skin I've been tripping in
And I've never quite returned
Yes, I'm grounded
Got my wings clipped
I'm surrounded by
All this pavement
Guess I'll circle
While I'm waiting
For my fuse to dry
Chorus
Cause I'm bigger than my body now
Maybe I'll tangle in the power lines
And it might be over in a second's time
But I'll gladly go down in a flame
If the flame's what it takes to remember my name
To remember my name, oh
Yes, I'm grounded
Got my wings clipped
I'm surrounded by
All this pavement
Guess I'll circle
While I'm waiting
For my fuse to dry
Chorus
Cause I'm bigger than my body
Bigger than my body
Bigger than my body now
John Mayer
26.5.07
Oh gravity, stay the hell away from me!
Gravity is working against me
And gravity wants to bring me down
Oh I'll never know what makes this man
With all the love that his heart can stand
Dream of ways to throw it all away
Oh Gravity is working against me
And gravity wants to bring me down
Oh twice as much aint twice as good
And can't sustain like one half could
It's wanting more
That's gonna send me to my knees
(repeat)
Oh gravity, stay the hell away from me
And gravity has taken better men than me (Now how can that be?)
Just keep me where the light is
Just keep me where the light is
Just keep me where the light is
Come on, keep me where the light is
Come on, keep me where the light is
Away from all the dark
Keep me where the light is
Keep me where, keep me where the light is
John Mayer
Por cada gota que cai no mar
Há uma outra que sobe ao céu
Por cada gota que a nuvem solta
Há uma outra que o mar lhe dá
Ai ai esperança vem cá cantar
Que o sol não cansa no seu brilhar
Olh'ó menino é um barquinho
Sonha sozinho sempre a remar
Ai ai esperança sonha com quem
Ó mar amansa embala-o bem
Cada criança será o pai
Doutra criança que dele sai
Ai ai esperança p'ra quê chorar
Espera menino esper'á cantar
La la la la la la
Ai ai esperança vem cá cantar
O teu barquinho há-de chegar
Ai ai esperança sempre a cantar
O sol não cansa no seu brilhar
Miguel Esteves Cardoso
cantado pelas Doce e por Sara Tavares
25.4.07
23.4.07
Elogio da Dialéctica

foto de Bogdan Jarocki
As Portas que Abril Abriu.
«Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
(...)
Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempo do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
(...)
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.
Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.
(...)
Foi esta força viril
de antes de quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.
E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.»
22.4.07
HOMEM DE COR
Quando cresci fiquei preto.
Quando estou doente fico preto.
Quando apanho sol fico preto.
Quando estou com frio fico preto.
Quando tenho medo fico preto.
Quando morrer ficarei preto.
Mas tu “homem BRANCO”,
Quando nasces és cor-de-rosa,
Quando cresces ficas branco,
Quando apanhas sol ficas vermelho,
Quando sentes frio ficas roxo,
Quando sentes medo ficas verde,
Quando estás doente ficas amarelo,
Quando morres ficas cinzento,
E ainda tens a lata de me chamar:
"homem de cor!"
Autor anónimo
Both Sides Now

Rows and flows of angel hair
And ice cream castles in the air
And feather canyons everywhere
I've looked at clouds that way
But now they only block the sun
They rain and snow on everyone
So many things I would have done
But clouds got in my way
I've looked at clouds from both sides now
From up and down, and still somehow
It's cloud illusions I recall
I really don't know clouds at all
Moons and Junes and Ferris wheels
The dizzy dancing way you feel
As ev'ry fairy tale comes real
I've looked at love that way
But now it's just another show
You leave 'em laughing when you go
And if you care, don't let them know
Don't give yourself away
I've looked at love from both sides now
From give and take, and still somehow
It's love's illusions I recall
I really don't know love at all
Tears and fears and feeling proud
To say "I love you" right out loud
Dreams and schemes and circus crowds
I've looked at life that way
But now old friends are acting strange
They shake their heads, they say I've changed
Well something's lost, but something's gained
In living every day
I've looked at life from both sides now
From win and lose and still somehow
It's life's illusions I recall
I really don't know life at all
9.4.07
a vida é uma coisa redonda que cai dos nossos

| foto de gennaro |
a vida é uma coisa redonda que cai dos nossos |
4.4.07
3.4.07
29.3.07
2 em 1
Os Placebo estão de volta!!!
15.3.07
Nascimento último

| Como se não tivesse substância e de membros apagados. Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra. E germinar no sono, germinar na árvore. Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa. Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada. No encontro e no abandono, na última nudez, respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva. Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível. E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços. Entre rumores e rios a morte perder-se-ia. António Ramos Rosa No Calcanhar do Vento - 1987 |
14.3.07

Rapariga com Brinco de Pérola - Johannes Vermeer
Hoje sonhei!
Um quadro.
Uma moldura.
Uma parede.
Uma pessoa que vê.
Estou na parede.
Dentro da moldura.
Presa no quadro.
Esquerda, direita.
Em baixo e em cima.
Faço das tuas pestanas asas.
Abre a moldura,
com um furo bem fundo.
Leva-me da parede,
nem que seja por um segundo.
Faz com que o meu quadro,
faça parte do teu mundo.
13.3.07
To Helena
| foto de Michael Simpson |
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente |
22.2.07
Formigueiro

L'échappée belle - almagnus
Formigueiro... sinto-o na barriga,
será do doce que guardo?
Será do frenesim em linha
que passa pelo carreiro,
que conduz à casa encarnada?
Pica ao de leve, alternando com facadas
rasga o rio e alaga o caminho,
os fluidos costumam facilitar a passagem.
Oxalá seja o caso, adoro não mexer uma palha.
Fecho os olhos, e vejo
lá vão elas... pelo carreiro molhado.
Não há obstáculos, só pressa
Urgência no destino. É para já!
Ser grande!
21.2.07
E agora aguardar porque para o ano há mais... E novas ideias já estão nos telemoveis com lembranças para a noite de Natal...
30.1.07
Afasta, afasta, afasta, afasta o meu dedal
Brejeira, não sejas trafulha
Ó linda vem coser o avental
Ai chega, chega, chega, chega a minha agulha
Afasta, afasta, afasta, afasta o meu dedal
Brejeira, não sejas trafulha, ai não
És a mais linda costureira em Portugal
22.1.07
Vem ai o Carnaval
21.1.07
PARABÉNS FLUPSILAND
17.1.07
A minha Ninhada...
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!
Miguel Torga
15.1.07
Saudade
"- Na terra, há tristeza dentro das coisas bonitas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
9.1.07
Insónia
8.1.07
Era uma vez...
Terra, mar, sol e vento.
Eu e tu
Num mar lamacento
Era uma vez...
Eles, tu, e eu
E depois...
Parece que apodereceu
Era uma vez...
Uma história para contar
Tivesse havido tempo
Antes de ela secar
5.1.07
A tua pequena dor

Ray,Man-Tears-1932
a tua pequena dor
quase nem sequer te dói
é só um ligeiro ardor
que não mata mas que mói
é uma dor pequenina
quase como se não fosse
e como uma tangerina
tem um sumo agridoce
de onde vem essa dor
se a causa não se vê
se não é por desamor
então é uma dor de quê?
não exponhas essa dor
é preciosa é só tua
não a mostres tem pudor
é o lado oculto da lua
não é vicío nem custume
deve ser inquietação
não há nada que a arrume
dentro do teu coração
certo é ser a dor de quem
não se dá por satisfeito
não a mates guarda bem
guardada no fundo do peito!
Carlos Tê/rui Veloso
Gato

Foto de Stefano Ricciardi
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Fernando Pessoa
Balanço anual
Numa altura em que estamos a fechar o balanço do ano anterior e a fazer previsões para mais um ano novo, nada melhor que uma ajuda para pensar no que realmente pode ser importante, no que faz a diferença, a pôr os pontos nos is, a separar o trigo do joio, etc etc. E tudo isto para dizer que este video é lindo e faz com que tudo seja lindo...
3.1.07
2.1.07
Ano novo, vida nova

27.12.06
A 100TOPEIA
Onde vai tão apressada
Ao menos diga um olá
Não seja mal educada
Já vi que tem muitas pernas
E que depressa se move
Se ficasse mais um pouquinho
Experimentava o meu 39
Sempre que nos encontramos
Foge-me a cem pernas
Para dentro de buraquinhos
Que mais parecem cavernas
Eu não vou pregar o olho
Hei-de ficar de plantão
Vou montar acampamento
Frente à sua mansão
E quando vir uma pata
A espreitar pela janela
Levanto logo no ar
A minha grande chinela
Mas será que sou capaz
De dar-lhe uma sapatada
Não é muito boa ideia
Fazer mal à bicharada
Vou arranjar-lhe casa nova
Mas que não seja na minha
Vou mudá-la para o jardim
Para ser minha vizinha
Vou voltar um dia destes
Com novas desta epopeia
Fiquem a aguardar noticias
Da amiga Centopeia
Lembrei-me
Lembrei-me, perdi-me, e encontrei-me
E lembrei-me de mim, de como era contigo
Lembrei-me, perdi-me, e encontrei-me
E lembrei-me de nós e dos outros
Lembrei-me, perdi-me, e encontrei-me
E lembrei-me porque não estás aqui
Lembrei-me, perdi-me, e encontrei-me
E lembrei-me do chegar ao fim
Lembrei-me, perdi-me, e encontrei-me
Hoje lembrei-me de olhar para trás
Lembrei-me, perdi-me, e encontrei-me
Capitão Romance

foto de morgan ommer
Não vou procurar quem espero:
Se o que eu quero é navegar!
Pelo tamanho das ondas
Conto não voltar.
Parto rumo à primavera,
Que em meu fundo se escondeu!
Esqueço tudo do que eu sou capaz:
Hoje o mar sou eu...
Esperam-me ondas que persistem,
Nunca param de bater!
Esperam-me homens que desistem,
Antes de morrer!
Por querer mais do que a vida,
Sou a sombra do que eu sou.
E ao fim não toquei em nada,
Do que em mim tocou.
Eu vi,
Mas não agarrei...
Parto rumo à maravilha,
Rumo à dor que houver pra vir.
Se eu encontrar uma ilha,
Paro pra sentir!
Dar sentido à viagem,
Pra sentir que eu sou capaz!
Se o meu peito diz coragem,
Volto a partir em paz.
Eu vi,
Mas não agarrei...
Ornatos Violeta . Capitão Romance
26.12.06
As palavras
Foto de MarianneLeCarrour
As coisas belas...

as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivo serão belas?
E belas, para quê?
Põe-se o sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do Sol?
E belo, para quê?
Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando coisas percebidas,
por que direi das coisas que são belas?
E belas, para quê?
Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas
sem precisarem de ser coisas percebidas,
para quem serão belas essas coisas?
E belas, para quê?
António Gedeão,
Poemas póstumos (1987)
Quanta almas tenho?
25.12.06
Parabéns

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?
Alberto Caeiro
17.12.06
12.12.06
Bonecas
11.12.06
All I want for Christmas is youuuuuuuuu
Tudo o que eu quero pelo Nataaaaal, és tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu-u-u-u-u-u!!!
La la lalalala lalalala lalala lalalala...
Largar amarras

Foto de Adrien Stocker
(...)
Parece que partimos. Cada dia
Mais, profundo na noite se aprofunda
E nós queremos partir - todos os cantos
Empalidecem ao pé desta descida
Até às pedras geladas do silêncio
Longe a claridade além dos rios
Queremos ir com o vento com o perigo
Queremos a injustiça do castigo
Somos nós que a nós mesmos nos matamos
E com mais amor do que quando amamos
Sentimos sobre nós descer o frio
Sophia de Mello Breyner
Quando

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente
Álvaro de Campos
10.12.06
Ericeira - Vila de Ouro
É o titulo desta foto e, não há duvida para quem conhece a Ericeira, que o autor não poderia ter escolhido melhor nome para esta imagem nocturna da vila.
Gostei muito desta fotografia.
Talvez porque sejam muito poucas as oportunidades de contempla-la do mar e à noite...
A imagem faz com que me sinta dentro de água, a olhar para caixinhas de luz desarrumadas, que sobem até ás estrelas.
Ericeira a vila de ouro que vale ouro.
6.12.06
O caminho para Ítaca

foto de michal chelbin
Se partires um dia rumo a Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posídon te intimidem!
No teu caminho jamais os encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se subtil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posídon hás-de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás-de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egipto peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor será muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te punhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu.
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.
Konstandinos Kavafis (1863-1933)























